Nódoa no Brim Edição #17 | Janeiro/2015

Por | 21 de março de 2016
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Manoel de Barros, 97 anos. Um Cabeludinho.

Foram 97 anos. Em 2014 a literatura brasileira perdeu escritores importantes e que, a seu modo, ajudavam a compor novas letras. No último dia 13 de novembro, Manoel de Barros se transformou em letras, palavras, versos, sons e vida na imaginação de milhares de brasileiros que acompanharam sua produção e vida. Morreu o homem, o poeta ainda segue buscando as coisas inúteis esquecidas pela vida, pelo cotidiano.
Seu primeiro livro foi publicado em 1937. Poemas concebidos sem pecados. Neste livro nasceu não somente o poeta, mas Cabeludinho aparece pela primeira vez. “Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho / bem diferente de Iracema / desandando pouquíssima poesia / o que desculpa a insuficiência do canto / mas explica a sua vida / que juro ser o essencial”.
Cabeludinho nasce fazendo referência a outro livro da literatura brasileira. Em Iracema, José de Alencar desenha o que acredita ser o modelo de brasileiro em sua época. “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara”.
Iracema nasceu na literatura como um modelo de beleza e de boas qualidades. Manoel de Barros não se interessava pelo que era considerado belo ou comum. Por isto, seu modelo de brasileiro nasce torto, “diferente de Iracema”, era desandado de poesia. Cabeludinho parecia tão inútil que o poeta precisa jurar que sua existência era essencial. Talvez o próprio poeta não soubesse ou imaginasse o que tornaria Cabeludinho livros mais tarde.
O poeta morreu um mês antes de completar 98 anos. No entanto, foi tempo suficiente para contar sobre as férias de Cabeludinho no pantanal. Em suas Memórias Inventadas, a criança reaparece, desta vez aquele modelo de brasileiro surge “de ateu”. A preposição deslocada na apresentação faz sua descrição virar motivo de piada entre seus novos amigos. Vejam: “Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Como quem dissesse no Carnaval: aquele menino está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de regências verbais. Ela falava de sério. Mas todo-mundo riu.”
Neste mesmo texto-poema, poeta e Cabeludinho mostram seu descontentamento pelas palavras encaixadas, presas. Interessava mais a liberdade. “Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam.”
O poeta era assim. Gostava das coisas tortas. Não era o pássaro na beira do rio, mas o rio na beira do passado.

Ricardo Marques Macedo (UNEMAT/PPGEL)

 

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O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Autor: Núcleo Wlademir Dias Pino

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

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