Nódoa no Brim Edição #23 | Julho/2015

Por | 21 de março de 2016
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“Uma só múltipla matéria”: Hilda Hilst desnudada

Múltipla, densa e única são palavras que descrevem bem Hilda Hilst (1930-2004). Dona de uma dicção singular, a paulista nascida em Jaú – SP usou a expressão literária e falou de tudo: do amor, da morte, da incompletude do ser humano, do desejo e mergulhou na alma humana tocando de modo veemente os mais profundos percalços da alma humana insuflando na poesia, no teatro e na ficção a mesma intensidade com que levou a vida.
Lírica, trágica, obscena, lúcida, irreverente, satírica Hilst compõe a paisagem literária brasileira e ganha cada vez mais espaço entre leitores e, até mesmo, nas universidades, as quais têm olhado mais acuradamente a obra da autora e desnudado sua produção com afinco e é cada vez mais frequente trabalhos científicos que voltam seu olhar aos textos hilstianos encontrando neles aquilo que de melhor a literatura nos oferece sempre: a capacidade de transcender a materialidade linguística das palavras e nos alçar a um universo que é próprio do fazer literário, permitindo-nos a ressignificação do real em todas as suas facetas
Na poesia, o trabalho de Hilda arquitetou-se de modo multiface numa tentativa de desvelar a exuberância do canto da sua poesia. Em versos pulsantes de vida, no âmago da poética hilstiana confluem gozo e tensão, prazer e dor que tocam e confrangem o imo do homem. Construída sob os pilares que sustentam o humano, seus versos expressam as transformações de seu tempo e marcam as pegadas de uma busca que perscruta tanto o anseio da mulher em perseguir a si mesma e marcar seu lugar no mundo, seja pelo amor, seja pelo desejo de vida, quanto a relação, nem sempre tranquila, do homem com Deus e com as forças inomináveis do destino, dentre elas a morte. Em qualquer um destes caminhos percorridos pela poesia, não há dúvida de que a condição humana se fundem para marcar o espaço da poeta em seus caminhos e descaminhos, gravitando em torno do homem, no móvel de uma aspiração plena que invariavelmente não se efetiva.
Em Júbilo, memória, noviciado da paixão depreende-se uma dialética desenvolvida em toda produção hilstiana, ou seja, as relações entre poesia e composição, poesia e história, poesia e eu poético, poesia e vida, e amplamente as relações do amor como mola propulsora da atividade poética. Amor aqui entendido não apenas no sentido material, mas como sentimento nutrido pela movência, o fluxo incessante da vida. A poeta, então, antena sensível do seu tempo capta e desvela uma realidade peculiar resultante da transfiguração simbólica das suas impressões que entrelaçam poesia e processo.
O excerto a seguir de um poema de Hilda Hilst da obra Júbilo, memória, noviciado da paixão traduz um pouco da potência extática da lírica da poeta hábil no canto das fundas questões que afligem o ser: “Canto. E o meu canto se ouvirá / Onde o silêncio pesa, porque de amor se fez / Em amor conduz / E se nem sempre o que vos digo vos alegra / Não é só pena e angústia do poeta” (HILST, 2002, p. 102). Dessa forma, como se disse, em Hilst a poesia e a vida são instâncias indissociáveis.

Aline Pires de Morais (UNEMAT/PPGEL/IFMT-CNP)

 

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O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Autor: Núcleo Wlademir Dias Pino

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

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