Nódoa no Brim Edição #3 | Setembro/2013

Por | 21 de março de 2016
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TOMAR PÉ: Sobre os estados da poesia contemporânea

Alguém que lê jornais e publicações de grande circulação se veria tentado a considerar nosso tempo como uma época de desinteresse pela poesia, época em que nada está em jogo – aliás, não apenas na poesia como na arte de modo geral. Nem por isso é correto dizer que faltam estudos sobre a literatura contemporânea. Pelo contrário, nos últimos tempos, o interesse pelo contemporâneo se exponenciou, a pujança editorial é real, a ideia de publicação é acessível de um modo quase inimaginável há 20 ou 30 anos, graças à tecnologia. O contraste, portanto, é evidente e se presta a uma guerra de interpretações que pode ser gravemente entediante, sem interesse para o leitor. E tenho a impressão de que não sou o único a pensar assim.
Apesar disso, acredito que devemos tirar consequências desse estado de coisas contemporâneo para conseguir tomar pé a respeito do lugar onde estamos e do que estamos fazendo. Então, formulando a questão de modo mais próximo das discussões sobre poesia, uma hipótese que tem me interessado é a seguinte: tenho a impressão de que, se a opinião dos jornais não basta, por outro lado, também tendemos a aceitar muito rapidamente a ideia de que vivemos numa época de diversidade e multiplicidade pacífica de tendências e projetos poéticos (ideia que se disseminou a partir de um famoso ensaio de Haroldo de Campos sobre a poesia “pós-utópica”, de 1984). A facilidade e a leveza com que nos reconhecemos como época de biodiversidade poética, de multiplicidade convivial ou concorrencial, se não é ruim por si mesma, tem um paralelo significativo com a dificuldade ou o mal-estar que experimentamos em relação ao passado não muito distante. Como se a expansão horizontal das possibilidades criativas coincidisse com um enfraquecimento da relação genealógica que nos coloca em contato com a história.
Depois de 30 anos apostando na necessidade da tolerância, da maleabilidade, da horizontalidade diferencial, chegamos num momento em que é preciso também entender com mais cuidado a nossa relação com o passado. Não é difícil perceber que há uma lacuna ou um vazio na historiografia na poesia brasileira recente. Tal lacuna não é simplesmente o deficit (para usar uma metáfora econômica) resultante da pluralidade ou do excesso de produção de poesia, como pretendem alguns, nem mesmo da falta de critério estético para aferir o valor das obras produzidas: o motivo, a meu ver, é a recusa de pensar (ou de avaliar, de modo menos apressado) a produção recente a partir do modo como reelaboram o passado das “gerações anteriores”, principalmente as mais imediatamente anteriores.
Embora alguns prefiram dizer que essas gerações recentes – e todo o conjunto de referências que vêm junto com elas – já foram alvos de um excesso de interpretação, não estou convencido disso. Acho que foram, sim, o alvo de um excesso de confirmações e denegações, de apologias e acusações, o que não é a mesma coisa. Ficaram, pois, marcadas pelo proselitismo, pelas estratégias de guerrilha, pelo confronto autocentrado, pelos mal-entendidos dos cálculos ideológicos e institucionais, nem sempre assumidos como tal – marcadas por tudo isso que, no fim das contas, parece não ter muita coisa a ver com a poesia.
Mas o que teria, de fato, a ver com a poesia? Pessoalmente, não acho que o recalque ou a denegação do conflito tenha a ver com a poesia. Parte do problema contemporâneo está na relação complexa que temos com essas gerações anteriores, e especificamente com o espírito de vanguarda que marcou o século XX de seu selo, de sua interpretação do passado e de sua sede de futuro. E não dissocio aqui, para mencionar apenas as referências mais recentes, os formalistas e os vitalistas, os concretistas e os marginais, os místicos e os minimalistas. Uso esse termo “vanguarda” de um modo bastante amplo (uma vez que a própria discussão sobre o mérito do experimentalismo vanguardista é uma das questões candentes dessa época), apenas para acentuar o traço histórico do projeto de ação transformadora, da atualização da poesia às necessidades de seu tempo e de seu lugar, da atribuição de uma função à poesia, aspectos que marcaram boa parte da história artística do século XX. Queremos acreditar que essa época acabou (sua morte, aliás, já foi decretada de vários modos), mas seus valores continuam presentes, atuantes, se não declaradamente ou em relação de continuidade, pelo menos no subterrâneo de algumas de nossas tomadas de partido.

Marcos Siscar

 

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O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Autor: Núcleo Wlademir Dias Pino

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

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