Nódoa no Brim Edição #52 | Dezembro/2017

Por | 6 de janeiro de 2018
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Literatura e Responsabilidade Moral: A escrita ética de Patrick Modiano

Confesso, publicamente, aqui, que tenho escolhido certos temas para pensar, ler e escrever em função de algumas dores. Desde que iniciou o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e todo o avanço mais explícito do conservadorismo mais retrógrado, que já vinha se alastrando há anos ou confirmando aspectos estruturais da sociedade brasileira, afetando nossos direitos alcançados com luta, que muitos de nós, infelizmente, desconhecemos, sinto-me mal. Um mal-estar que não passa e que afeta todas as dimensões da vida.

Doem-me as mazelas antigas do Brasil, o racismo, as desigualdades e injustiças de qualquer natureza. A partir da constelação dessas dores todas, que me inquietam e que, apesar de seu peso, não deixo me paralisarem, me oriento, desde 2015, com mais afinco, à leitura de um certo tipo de prosa literária. Agora, não é mais possível fingir, tergiversar. Pairam, efetivamente, ameaças, algumas já concretizadas, que encontram substrato na nossa história, na nossa cultura, no nosso ethos como povo, na nossa tão propalada falta de memória.

Como inspiração, tenho lido e relido livros sobre processos ditatoriais, sobre o nazismo e outras formas de opressão ocorridas durante o século XX. Entendo que uma certa ética-do-si (cf. BUTLER, 2015) constitui uma das tônicas da literatura contemporânea, principalmente num esforço de reler o passado pessoal e coletivo no que diz respeito às implicações com o outro, isto é, em termos de responsabilidade moral. Uma fonte de resistência tem sido Patrick Modiano, escritor francês agraciado com o prêmio Nobel de Literatura em 2014, nem sei se injustamente ou não.

A meu ver, Patrick Modiano põe em prática essa ética-do-si sem, entretanto, forçar um programa militante ou revelador de uma “boa consciência”. É um projeto literário coerente e, na visão de alguns críticos, repetitivo, acomodado numa fórmula que deu certo a partir de uma obsessão temática, a Ocupação nazista na França e, de modo mais específico, a colaboração dos franceses. Vários críticos já disseram que Modiano escreve sempre o mesmo romance, mas são livros em que o prosaico da vida, com toda a sua pregnância, resiste sob o peso do Histórico. Não há uma imagem da catástrofe, não há representação do mal, apenas a “atmosfera da desgraça iminente” (cf. RODRIGUES, 2015). E justamente é o que me encanta: o modo como o autobiográfico se imiscui com o histórico, com o passado coletivo traumático, numa escrita que é mais biografemática – noção bonita e pujante, formulada por Roland Barthes – do que autobiográfica.

Lilian Reichert Coelho (UFBA)

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O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Autor: Núcleo Wlademir Dias Pino

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

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