Nódoa no Brim Edição #58 | Junho/2018

Por | 24 de julho de 2018
foto destaque

Imagem e Memória em Grande Sertão: Veredas

O princípio pelo qual Riobaldo transforma sua memória em uma totalidade individualizante estabelece-se a partir do sentido profundo que as imagens, encontradas no passado, assumem quando reorganizadas. Enquanto representação, não mais que representação (Bergson. In: Matéria e Memória. 1999), as imagens figuram a experiência longínqua  (Se deu há tanto, faz tanto, imagine …),realizando-se, segundo uma articulação arbitrária,  em forma e matéria (imagens-lembranças). Um jogo com diversos componentes formais obedece a regras e estratégias preciosas de duração na elaboração. Estas estratégias constituem um modo de organização que se estabelece a partir de elementos inseparáveis: a manipulação da experiência passada do narrador conjugada a uma perspectiva de presente. Tamanha é a capacidade desse narrador na elaboração do passado que, embora se remeta o tempo todo ao seu ouvinte, a emoção de narrar parece estender o passado fazendo-a constância sinuosa e dolorida. A re-construção de Riobaldo restaura e instaura uma ordem em que os limites do tempo tornam-se incompreensíveis, insondáveis. Não me refiro ao evento (o encontro com Diadorim), mas à capacidade sensorial e emotiva que resguarda a elaboração. Essa capacidade criadora do narrador deve-se, a nosso ver, a condensação que a imagem explora entre tema e ciclo natural. A sincronização entre a experiência do eu-narrador e Natureza dão o ritmo poético à imagem.  A sonância entre Natureza e sujeito é sintomática e parece inferir sobre o “eu” uma forma de sentido, um sentido pronto e perene, mesmo que dual e não totalmente decifrável – como a esfinge – como a Natureza humana: o homem pelo avesso.

Essa materialidade da imagem permite a compreensão do encadeamento poético como princípio resultado de uma associação da lembrança com o ato de narrar. Para Cleuza Passos (In: Guimarães Rosa: do feminino e suas estórias 2000), Riobaldo não apenas reconstrói a trama do passado, desfazendo laços e fios que se desdobram no presente, (…), não produz apenas sua própria reelaboração, mas retrabalha a tradição literária e, nela, a inserção da singularidade de Diadorim, As emoções do eu-narrador traduzem-se em emoções estéticas que levam à contemplação da forma. Seduzindo, Riobaldo (re) descobre a experiência e a elege com fidelidade.

Walnice Vilalva (PPGEL/UNEMAT)

p+ígina 01-1 p+ígina 02-1 p+ígina 03-1 p+ígina 04-1

 p+ígina 05-1

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Autor: Núcleo Wlademir Dias Pino

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *