Nódoa no Brim Edição #59 | Julho/2018

Por | 2 de agosto de 2018
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O Nascimento de um Sujeito Social Inaugural: A Multidão

Perplexos assistimos ao retraimento de nossa democracia; sentimos diariamente a força do GOLPE em nossos corpos e vidas; permitimos o encarceramento de um preso político, que caso não tivesse sido tirado de cena, seria novamente presidente; ficamos incrédulos diante do inacreditável pedido de retorno da ditadura; observamos as forças armadas estendendo seus tentáculos para a política, asfixiando-a; sabemos que nunca houve congresso tão medíocre, vil e usurpador; contemplamos a “geleia geral” a que se reduziram os três poderes; aceitamos que um juiz de primeira instância seja rei; enterramos Marielle. Muito mais há para ser dito, o horror deste tempo parece ter a forma do infinito… Entretanto, esses bizarros exemplos são suficientes para ilustrar como a democracia vem sendo violada.

Este processo não ocorre apenas em nosso país, pertence à ordem mundial, e se há uma pauta que pode ser considerada comum a todas as manifestações que ocorrem pelo mundo é a da exigência de mais democracia. A contemporaneidade está mergulhada em uma crise política que exige ruptura e reinvenção, para além da representação. Todavia, apesar do lúgubre cenário, algo se move, está em latência e começa a ganhar corpo. Nem tudo está perdido: nasce um sujeito social inaugural, que Antonio Negri e Michel Hardt nomeiam (por perceberem-no já em potência) e oferecem instrumentos teóricos para uma possível compreensão, e que José Saramago dá forma estética: a multidão.

O romance Ensaio sobre a lucidez (2004), do autor, discute a democracia, sua crise, contradições e elege a mesma coletividade que vivera a experiência-limite do “mal-branco” em Ensaio sobre a cegueira (1995). Portanto, oferece o mundo pós-cegueira, mostra como as personagens reordenaram suas formas de vida, e se realmente houve uma pedagogia do olhar. Afinal, é a convocação para ver o imperativo do primeiro “ensaio”, como fica expresso de antemão na epígrafe do mesmo: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Novamente um modelo de vida é posto em xeque: o modelo democrático. Também, como na obra anterior, as personagens se vêem confrontadas com uma crise que atinge o coletivo, agora, da ordem do político: a deflagração do voto coletivo em branco e a instauração de um estado de sítio em decorrência desta escolha.

Claudia Carla Martins (PPGEL/UNEMAT)

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O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Autor: Núcleo Wlademir Dias Pino

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

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