Nódoa no Brim Edição #9 | Abril/2014

Por | 21 de março de 2016
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JOSÉ SARAMAGO: Os Limites do óbvio

…aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio.

O mar é sempre tenebroso, ainda que com a água cor de jade e o céu como um incêndio. As ilhas, às vezes, parecem que flutuam sobre as águas, e não é verdade…Na vida, há que sempre se cuidar com as impressões, especialmente com aquelas do tipo das que julgam lindo e sereno, ou mesmo furioso e temível, o mar visto da praia, à sombra, num feriado qualquer. Assim é com a vida, assim é com a narrativa. O que sustenta e reforça as ilusões? Uma coisa, certamente: a aparente obviedade das coisas. Foi óbvio o fato de que a terra era plana (talvez não para toda a humanidade) até alguém mostrar que não e, assim, ser possível que barcos saíssem loucamente para realizar o óbvio objetivo de acumular riquezas, em nome de um rei que obviamente fora indicado por Deus. O universo passado das grandes navegações, ou da maniadas navegações, dá material para O conto da ilha desconhecida, de José Saramago, autor português, ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1998. É importante dizer que a escolha do texto não se dá aqui (o que seria óbvio) por ser Saramago o único ganhador do famoso prêmio para a língua portuguesa, mas sim porque seu conto é um exemplo de como uma narrativa simples pode ter um efeito significativo, se o que se leva em conta na leitura é a troca de experiências entre autor e leitor, para além de uma linguagem rebuscada e de sutilezas psicológicas.
O conto não fornece datas ou nomes, nem do lugar, nem de personagens. Entende-se que a história se passa num reino (pois há um rei) para o qual as navegações de descoberta foram importantes, mas que ficaram no passado. As personagens são conhecidas pelo que fazem: o rei, a mulher da limpeza, o capitão, o homem que queria um barco. O narrador começa descrevendo a burocracia oficial do palácio, representada por um esquema de “portas”. Enfatizam-se as portas dos pedidos e a dos obséquios. E aqui estamos novamente a falar de obviedades: pela porta dos obséquios, o rei recebe obséquios de seus súditos; pela dos pedidos, os súditos fazem pedidos ao rei. O rei passava todo o tempo sentado à dos obséquios e, desde que andava com a coroa na cabeça, não havia sentado ainda à dos pedidos, cuja responsável acabava sendo a mulher da limpeza, que sempre atendia por uma fresta. Entre uma porta e outra, diga-se, entre a mulher da limpeza e o rei, os pedidos faziam um longo percurso por diversos secretários, até que voltavam à mulher da limpeza, que respondia conforme “estivesse de maré”. Pelo que se entende, a vida seguia normalmente, com todos seguindo o protocolo e as competentes e necessárias vias burocráticas pela qual o cidadão comum teria acesso, ainda que demorado e indireto, à atenção e atendimento de sua autoridade.
Mas eis que um dia, na porta dos pedidos, surge um homem que queria algo incomum. Ao invés de um “um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro”, o homem quis falar ao rei.Seu pedido desmantela o esquema das portas, simplesmente porque ele é de outra natureza, diferente tanto da dos pedidos feitos ao rei, quanto da dos obséquios recebidos por ele. Ele exige a presença real, face a face, sem intermediários.Não quer bens materiais, elogios, nem reconhecimentos. O homem foi astucioso ao se aproveitar da regra do palácio, que era a de atender a uma pessoa de cada vez, o que fez com que uma fila se formasse à porta dos pedidos, fato que, gerando descontentamento no povo, influenciaria diretamente a frequência na porta dos obséquios. Quando chega o rei em pessoa para atender ao pedido, o homem faz outro pedido incomum: queria um barco para encontrar uma ilha desconhecida. O estranhamento sentido pelo rei vem também do fato de que, no diálogo entre ele e o homem, lugares comuns podem ser questionados pela atitude do homem: a convicção real de que não existiam mais ilhas a explorar e de que os barcos do reino pertenciam ao rei, assim como a exigência real de que a suposta ilha encontrada fosse dada a si.
Visto de uma forma estrutural, em seu sentido subjacente, o estranhamento do rei pode ser entendido pela diferença entre um padrão de comportamento usual e, portanto, esperado e óbvio, e outro, que não se enquadra em esquemas especulativos e explicativos, pelo menos não naqueles que trabalham para sustentar o óbvio. Diga-se o mesmo com exemplos do que é óbvio e usual: pelo lado dos súditos, pedir condecoração ou dinheiro e esperar a graça de ser atendido pelo rei, que é autoridade superior. Pelo lado do rei, conceder a graça aos pedintes e esperar presentes e obséquios. Dessa forma, baseando-se em privilégios concedidos, apadrinhamentos e toda sorte de gestos que sustentam um padrão de troca de favores, o sistema se mantém, corriqueiro e comum.

Prof. Dr. Everton Barbosa (UNEMAT)

 

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O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

Autor: Núcleo Wlademir Dias Pino

O Núcleo Estudos da Literatura Wlademir Dias Pino foi criado pela Resolução n.180/2007 – CONEPE, em 07 de dezembro de 2007. Surgiu do grupo de pesquisa Estudos da Literatura de Mato Grosso, cadastrado no CNPq e liderado por Walnice Vilalva e Tieko Miyazaki.

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